O cheiro da gasolina impregna a roupa quando a chave bate em seu ponto de ignição, fazendo o motor do velho Fusca ronronar quase engasgado nas primeiras horas do dia. Um ouvido à alguns metros verticais dali provavelmente pensara que naquele horário respeitar-se-ia algum silêncio privado de segredo. Me aproprio desse silêncio para pensar que não é minha culpa, nem do Fusca, mas que peço desculpas.
Olhos de tamanhos e furtividades diferentes flutuam apressados de um lado para o outro me encarando nas escadas, enquanto no calor da pele e do sorriso ainda vívido desfilam lindos, desnudando-se as intenções, provocando nada mais que alento.
Não me permito, mesmo levado, o perfilar. Preferiria o pulso em staccato que pontuara minutos antes. Minutos antes de minutos, muito antes de outros minutos.
Num agravo de permissões, os olhares cruzam-se oblíquos sem fazerem concessões a si mesmos. Se encontram e se almejam na promessa do relance. Pode ser eterno esse instante?
Reparo que os olhares não mais se encontram em linha reta, como numa tentativa de não colidirem-se fatalmente num momento qualquer. Eles se encontram por entre um ponto cego e desconhecido em algum lugar hipotético no chão ou por sobre os ombros e olhares alheios, como se tentassem ali revelar suas intenções sem todo o julgamento, sem toda a verdade, longe dos olhares retos que lhes apavora.
Termino o dia como comecei: com todo aquele cheiro de gasolina me engolfando, enquanto dirijo meu olhar reto para o rádio que sempre toca as mesmas músicas na mesma sequência… e me pego olhando oblíquo para um ponto imaginário. Eu rio, pensando que talvez lá vivi algo que por esses breves instantes foram, sim ou talvez, eternos.