Ensaio sobre a inércia

É cedo. O Sol entra forte pela fresta mal coberta da janela enquanto o cheiro de incenso invade o recinto, moldando-se à cada inspiração e…

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É cedo. O Sol entra forte pela fresta mal coberta da janela enquanto o cheiro de incenso invade o recinto, moldando-se à cada inspiração e expiração, a cada movimento do ar.

O mundo lá fora me encara sereno e sem cor definida, apesar do céu azul que circunda o contorno de prédios, antenas e a casa de um vizinho a muito adormecido, ainda ébrio com a vitória do seu coletivo preferido. Ele não me desafia e parece querer me passar até certo conforto em relação ao que ele realmente gostaria de me dizer.

Uma badalada, e meu corpo ainda entorpecido curva-se por cima de si mesmo para um lado e para o outro. Uma badalada, e minhas pernas cruzam uma sobre a outra tentando criar uma base para que o corpo se alinhe. Uma badalada, e minhas mãos, ombros, queixo e olhos se projetam para o vazio em busca de algo.

Alguns momento dali e o branco da cortina começa a se ornar de uma matiz de cores que pulsam na mesma velocidade que os olhos tentam se forcar em um só ponto. As dores emergem como se despertadas pela oportunidade de se fazerem presentes: em alguns instantes, me descubro. Eu estou ali.

A barriga locomove o ar que entra e sai, trazendo consigo inspiração, a atenção de que estou fazendo algo ali, naquele momento. O fluxo passa por dentro das minhas entranhas, fazendo aquela forma disforme da cortina se moldar um pouco.

A dor se esvai … percebo meu queixo caído, minhas costas curvadas e me coloco novamente de encontro com as dores emergidas a alguns minutos. E isso vai se repetindo por minutos a fio: a dor estranhamente me faz ter certeza que estou ali.

Ao que me prendo: meus pensamentos flutuam, pairando ante minha face. Problemas, amores, medos, sonhos, o projeto que preciso terminar, a ligação que preciso dar. Percebo que meu coração bate compassado, numa velocidade que nunca percebi. Quando foi a ultima vez que percebi meu coração batendo?

Os pensamentos, como quadros, passam e me torno um expectador de mim mesmo. Tenho muitos quadros para olhar, como se a vida tivesse virado uma grande galeria, com tantos corredores quanto podem ser as facetas e contextualidades que a vida nos trás. Podemos colocar todos numa grande galeria, podemos colocar alguns especiais numa pequena galera especial. Devo me deter olhando apenas alguns, tentando desvendar e admirar a beleza de cada um, ou me apressar para olhar todos?

Uma badalada me traz de volta. Fecho as portas da galeria e quando olho de relance por entre a fresta da grande porta que empurro com ambos os braços, vejo algo ou alguém me espiando como se quisesse me dizer algo por um instante. Uma badalada, a dormência das pernas e a dor me fazem lembrar que estou ali ainda.

É cedo ainda e o dia mal começou. Ouço a porta do quarto se entre abrir com um rangido característico. Preparo o café e me pego pensando que tipo de quadros verei e colocarei na minha galeria no dia que está por vir.