Meu Zafu — almofada de meditação — feito pela mamãe na frete da janela, vulgo Cantinho da Meditação
Sempre fui um cara inquieto e cheio de idéias, aquele famoso muleque que a mãe fala que tá sempre “inventando moda” (mãe, te amo). Um preço que se paga por isso é a descontinuidade de algumas coisas que com o passar do tempo caducam, vão perdendo aquele FOGO inerente à nossa paixonite de momento ou simplesmente são longas demais pra uma mente que lá no fundo deve pensar que a vida é agora e não vou ficar fazendo isso pra sempre.
Eu conseguia lidar relativamente bem com isso até que a vida adulta e profissional começou a cobrar o seu preço em forma de projetos e tarefas: nada disso traduzia mais aquela liberdade inconsequente de simplesmente deixar pra lá.
Projetos envolvem pessoas, clientes, sonhos, planos e continuidade … e se não fosse a continuidade, tudo estaria bem.
Eu precisava mudar a forma como eu trabalhava não apenas com o meu tempo, mas com o tempo das pessoas que dependiam do meu trabalho. Pra mim, pior do que me prejudicar, é a sensação de prejudicar os outros.
Nesse caminho, descobrira muitas ferramentas legais que me ajudaram bastante a não apenas organizar, mas planejar o futuro: o GTD (Get Things Done) do David Allen foi o primeiro hype que deu certo comigo. O conceito de Inbox Zero, processamento, contextos e tudo mais me ajudou como nunca a enxergar tudo como uma Espada Justiceira dos Thundercats.
Iniciar o uso do GTD e Inbox Zero foi mágico até que algumas semanas depois pude sentir que algo estava errado. A frustração tomou conta quando vi que não conseguia criar e manter tantos hábitos ao mesmo tempo para que essas maravilhosas metodologias dessem certo.
Patinei, fiquei p*to e parti para uma abordagem mais minimalista, que foi condensada brilhantemente numa coisa chamada ZTD (Zen to Done) pelo Leo Babauta. Ela é baseada no GTD, mas com uma pegada mais “Vá com calma consigo mesmo e faça um pouco de cada vez…” numa roupagem light, zen.
O ZTD resumiu num cara chamado Minimal ZTD uma abordagem ao método que pregava 4 hábitos ao invés de trocentos: coletar, processar, planejar e fazer.
O Leo travestiu o velho e bom PDCA num método que já conhecia e me deixou mais confortável. Porém, mesmo com 4 hábitos apenas, depois de algum tempo comecei a viver numa mudança de ZTD com GTD constante: se o simples me atendia no quesito menos hábitos para masterizar, me faltava o processo do GTD em si. Mas ao mesmo tempo, esses processos precisavam de mais hábitos … então você deve imaginar o quanto mudei de contexto desse meio tempo.
Algum tempo depois notei que o que era difícil era criar e manter o hábito e isso nenhuma delas conseguiu explicar bem como fazer. O número de hábitos e a mudança constante de metodologia eram uma tentativa de achar a forma como criar isso (o hábito) com menos dor.
Ferramental (presumidamente) definido, comecei a sentir falta de como executar essas tarefas. Se organizar é complexo meu amigo, mais complexo ainda é você parar e fazer algo. Num mundo de distrações, onde o celular te persegue e as mídias sociais te dão aquele pequeno momento de prazer que se repete por horas a fio, criar foco tem sido na minha visão o diferencial da pessoa produtiva moderna.
Fui apresentado à técnica Pomodoro pelo meu irmão Paulo Jeveaux e partir desse momento virei um evangelizador da ferramenta. Simples e direta ao ponto, consegui fazer algo que perseguia a tempos: juntar a organização com a ação. E isso foi mágico!
Mágico até aquele cara lá do primeiro parágrafo retomar a velha, boa e cruel inquietude. E lá estava eu novamente, oscilando entre semanas de organização, semanas de ação, as duas juntas e as vezes até nenhuma das duas. Me questionava: É assim mesmo?.

Mesmo com a faca e queijo na mão, ainda faltava algo. E mesmo lendo centenas de artigos e blogs com as famosas receitas de bolo da produtividade e organização, eu não conseguia achar algo que conseguisse me identificar.
Até que fui participar de uma vivência num mosteiro Zen e descobri a meditação.
Assuntos filosóficos e modos de vida sempre me fascinaram e essa seria uma oportunidade bacana de conhecer a filosofia Zen. Me cadastrei e lá fui eu para o Mosteiro Zen de Ibiraçú, que fica aqui mesmo no Espírito Santo.
Fui para passar apenas dois dias no que os ordenados (os monges) chamam de aperitivo de um retiro. Era a oportunidade perfeita de conhecer mais sobre o Zen sem ter que passar um retiro de vários dias.
Entre ensinamentos, ótima comida, lições de humildade, quebras de paradigma (os monges não são nem um pouco quietos e a vida no mosteiro é agitadassa) e muita contemplação à metade da velocidade da vida normal, o que mais me impactou foi a prática da meditação, repetida várias vezes por dia.
O Zazen, ou Não-Ação, como a meditação é chamada pelo Zen, é graciosamente simples e surpreendente, não porque você entra num momento de relaxamento mas por te manter num estado de concentração singular.
https://www.youtube.com/embed/pRpayFySsto?feature=oembed
Um conceito de que o vazio é a forma, e a forma é o vazio é explicado de várias maneiras durante a vivência e dá sentido à meditação. Não é sobre relaxar e sair voando ou entrar em mundos esotéricos (como se bate na tecla constantemente durante os ensinamentos dos monges): é sobre estar uno e focado … uma versão menos fancy e old school do mindfullness.
O Zazen me fez sentir-se diferente.
Voltei para Vitória e comecei a praticar o Zazen toda manhã. Acordava bem cedo, ligava um app que simulava um sino de mosteiro e lá ficava por 25 min, inerte, vendo os pensamentos do dia anterior e do dia que viria passando na minha frente como fotos levadas pelo vento.
Cara… minha primeira semana foi brutalmente produtiva, focada e principalmente disciplinada. Consegui fazer uma limpa na minha lista de links pra ler, consegui estudar coisas novas, concluir projetos e tarefas … tudo isso sem ficar olhando Zap, abrir mil abas no navegador e sem perder o foco.
Ouçam bem amigos: concluir projetos e tarefas sem perder o foco. Usando a mesma metodologia de sempre e da forma como sempre fiz.
Fiz então uma prova de conceito: fiquei uma semana sem fazer o Zazen. E o resultado foi claro: a velha e boa procrastinação bateu à porta.
A meditação agora faz parte da minha vida :)
Hoje é inegável, numa constatação pessoal e que divido aqui, que a meditação torna meu dia mais produtivo, focado e leve de uma forma que nunca experimentei antes. Isso se refletiu na minha vida pessoal, nas tarefas de casa (quase sempre a pia mantem-se limpa sem louças para lavar), na perspectiva de como olho os problemas e soluções.
Achei na meditação a prática/hábito chave que vem me permitindo desenvolver todos o outros hábitos, entre os quais os que precisava tanto para me organizar com o ZTD quanto pra executar as ações com o Pomodoro.
Com esse foco, passei a ler mais, escrever mais, planejar melhor e achar tempo em alguns momentos que antes eram reservados pra se planejar e re-planejar frenéticamente.
Hoje, reduzi minha organização à uma lista de tarefas que fica na minha agenda (utilizando uma versão adaptada do Bullet Journal — papo pra um outro post), que reviso e controlo semanalmente e executo pedaço a pedaço utilizando o bom e velho Pomodoro, agora com foco.
Tornei-me uno com cada tarefa que executo, uma de cada vez.
Talvez uma das coisas mais importantes é que hoje eu olho pra trás e pra frente e consigo enxergar com clareza o que tenho que fazer ou deixar de fazer. :)
Pratique!
O Zazen é simples, fácil, rápido, pode ser feito em qualquer lugar e é comprovadamente um dos meios mais eficazes para manter a saúde do cérebro e melhorar uma pá de coisas mentais.
\\// Vida longa e próspera.